A idéia era fazer um post de uma menina que acordava de manhã e a Epifania estava a persegui-la. Ela, então, sairia correndo para se esconder. Antes, vestiria suas sapatilhas e vestido creme-baunilha. Nossa, como ela seria bonita! Cabelos curtos, olhos cheios de curiosa vergonha, pele cor de moldura de quadro. Cheia. Fértil. Viril. Feminina à exaustão: Uma estátua.
Tentaria primeiro no quarto de coisas do quotidiano. Mas era tão apertado, que se a Epifania chegasse por qualquer das suas mini-janelas, ela estaria acabada. Iria para o sótão das lembranças. Cheio de retratos empoeirados. Lá poderia ficar por muito tempo. Mas afinal, ela iria acabar ficando entediada e começando a rever suas fotos antigas, encontraria a foto dele. Que a faria lembrar daquela tarde estúpida, e as palavras nunca ditas… e enfim, era a Epifania novamente que começava a romper a tranca de zinco.
Restava sair de casa, foi para o Jardim das Sensações. Lá, iria tocar cada flor-sensação, cheirar as cores e texturas até a criatividade acabar. Neste instante ela viria um cavalo branco correndo em sua direção. Era o cavalo da linguagem. O veículo que poderia livrá-la de seu algoz. Se cavalgasse o suficiente, sairia daquele país do pensamento. Terra de estranhas leis.
Subiria à linguagem, e força-la-ia. Faria-a correr, soar, cansar, torcer-se, morrer e ressuscitar. Até que o cavalo da linguagem, pégasus do sentimento viraria.
Alçaria vôo. Iria à lua do amor, ao sol da paixão. Visitaria cada estrela do coração.
Sob seus pés, as lágrimas da Epifania regariam sem pressa algumas margaridas.
Viu a máquina do mundo e, bestificado que ficou, desligou-a.
Foi assim que o mundo começou. Com um puxão de tomada Uma paixão suicida pelo desconhecido e estranho futuro
Doravante, dominado pelo não-fazer, desligado de si mesmo
Era assim que a via, desde o dia que enviou aquele sorriso tão curto quanto um telegrama.
A remetente brilhou para a mim desde então. Seus passos eram como goles d’água para o peregrino e suas palavras pedaços de pão.
Um instante sem ela era a fome e a sede e a desgraça e a peste. Conhecia pela primeira vez o amor. O amor, esta estranha vocação de devoção. Anos mais tarde, quando perguntou meu filho se o amor só era bom, parei e lembrei dela. Lembrei que a sua ausência era jejum, mas nunca dor. Ela nunca me fez sofrer.
Nem nunca, neste mundo, ninguém fez. Cativo do otimismo, minha declaração de amor foi recebida com uma gargalhada SEDEX. Ela riu de mim e, passando a mão em minha cabeça, disse:
-Mas eu tenho namorado menino… Fico muito feliz com as flores, o chocolate, a carta, o filme, o livro, o anel e o galanteio, mas sugiro que você vá endereçar seu amor a outra pessoa. Meu coração já tem destinatário.
Obedeci minha amada deixando de amá-la, tamanho era o meu amor não correspondido, mas minimamente respondido.
Pois o não é o vazio com limite. Se dói, dói em três letras e um acento. Não mais. Não mesmo. Não é?