Sua rotina agora incluía arroz, feijão e livros. E um emprego meio-período como condutora de Kombi escolar.
Quando terminou de lavar-se, sentou-se ao lado dele. Os dois estavam sentados no mesmo sofá e, entre eles, teve início uma conversa de muito interesse para ambos.
- Eu soube de tudo a seu respeito por intermédio da minha esposa – disse ele – muito me alegra que você a tenha visto com frequencia.
Os parágrafos que se seguiram foram olhados, mas não lidos. Laura pensava nas horas, na janta e no tempo. Aos poucos, a ausência dele ia deixando de ser algo difuso, um pedido do corpo ou uma mentira mal contada. Aos poucos, a saudade conhecia uma concretude. Aos poucos, começou a dizer a que vinha. Como uma sede que se sente no cinema, um ventre constipado.
Ainda sem saber, fora acometida de precisância.
- Minha cabeça começou a doer, vou para casa.
- Muito bem, então até logo. Você me dá carte blanche?
- Conversaremos depois, irei vê-lo em Petesburgo.
Ao sair da paixão e voltar ao romance, virou a página e pagou o preço. Da coceira ao sangue na folha, foi um segundo. O corte foi profundo. Deixou o livro ali mesmo, aberto em seu colo, e segurou a mão direita com firmeza. O sangue não exatamente escorria, mas desenhava um caminho por entre palma e punho. Laura apertava a mão como se promovesse a sangria. E em silêncio e desligamento do mundo, ingenuamente, purgou ali mesmo uma ou outra falta que ficou pelo caminho.
Quanto tempo durou o retrato hiperrealista? Instantes? Horas? Nem ela nem eu sabemos. O fato é que Laura só voltou a si quando, após alguns barulhos longínquos de chaves e murmúrios fáticos, ele sem nada dizer ajoelhou-se e colocou o indicador banhado de sangue na boca. Não lambeu, não chupou, não pediu licença: acolheu dentro de si um corpo que não era dele, mas também não era mais dela. O humor não tinha gosto de ferro, era amargo.
Ao piscar e abrir os olhos já abertos, Laura viu que fora pega. Que estava num lugar desconhecido, que não respondia por si. Que havia um abismo entre o que sabia de si e o que viu.
Recolheu a mão junto ao peito e, tomada de pânico, conseguiu pela primeira vez dizer nada.