política do café com leite (rascunho)

Ela, saindo dum banho inútil, viu o primo cortando as cenouras pra sopa. Se achegou, apoiou os cotovelos na mesa, o queixo nas mãos e os pensamentos no além.

Não disseram nada. Mas falaram um pouco.

Daí que ela olhou pro lado e viu uma cebola. Enorme. Brilhava de tão grande. Era, como se dizia, abaulada, sinuosa. Chamou sua atenção a cebola. Tudo o que se havia de se haver era a faca na tábua e a cebola e a voz dele que já no ritmo do corte estava. Cebola, cebola. Crescia pros olhos, cebola, até se imaginou mordendo com gosto, arrancando pedaço com um cebola misto de raiva e fome, nem desejo tinha, de tanta cebola sofreguidão cebola. Nisso, as lágrimas ce misturavam com um suco bo que nunca ninguém lá descobriu, potente, patente, patética, se viu com a mão entre as pernas, cebolinha.

Antitética, correu pra rua e lá ficou, tomando banho duma chuva anti-ética numa manhã de sol seca.

-Dinha! gritou o primo lá de dentro.

Gostava das férias no interior.


combo da semana: escarlate

song da semana:

imagem da semana:

Egon Schiele – Kniendes Mädchen in orangerotem Kleid

escrito da semana:

She had wandered, without rule or guidance, into a moral wilderness. Her intellect and heart had their home, as it were, in desert places, where she roamed as freely as the wild Indian in his woods. The scarlet letter was her passport into regions where other women dared not tread. Shame, Despair, Solitude! These had been her teachers – stern and wild ones – and they had made her strong, but taught her much amiss.

Nathaniel Hawthorne, A Letra Escarlate.

falo porque preciso, ouço porque não escuto

há quanto tempo não converso?
digo de conversar mesmo
sabe?
não papagaiar
não discutir
não argumentar
e
não conduzir o assunto
(só por piedade)

não me alembro não da última vez que conversei
sem dizer o que o se quer ouvir
ou comentar um comentário comentado

conversar não é convergir
poucos conversam
sem querer sapatear
ou mostrar as coisas
ou ser poeta

“com verso”
mó ridículo
prefiro
desconversar

[no sonho, falava isso tudo pra minha tia Odalice
ela me olhava, impávida e resmungava
do alto de sua adultidade:
deixa de conversa, menino]

agradeço a deus por cada conversa que cai no meu colo
no ônibus
no espaço
no tempo
no tempo
no tempo
nu tella
e nas prosas escondidas
na tela

interior – parte v

Sua rotina agora incluía arroz, feijão e livros. E um emprego meio-período como condutora de Kombi escolar.

Quando terminou de lavar-se, sentou-se ao lado dele. Os dois estavam sentados no mesmo sofá e, entre eles, teve início uma conversa de muito interesse para ambos. 
- Eu soube de tudo a seu respeito por intermédio da minha esposa – disse ele – muito me alegra que você a tenha visto com frequencia.

Os parágrafos que se seguiram foram olhados, mas não lidos. Laura pensava nas horas, na janta e no tempo. Aos poucos, a ausência dele ia deixando de ser algo difuso, um pedido do corpo ou uma mentira mal contada. Aos poucos, a saudade conhecia uma concretude. Aos poucos, começou a dizer a que vinha. Como uma sede que se sente no cinema, um ventre constipado.

Ainda sem saber, fora acometida de precisância.

- Minha cabeça começou a doer, vou para casa.
- Muito bem, então até logo. Você me dá carte blanche?
- Conversaremos depois, irei vê-lo em Petesburgo.

Ao sair da paixão e voltar ao romance, virou a página e pagou o preço. Da coceira ao sangue na folha, foi um segundo. O corte foi profundo. Deixou o livro ali mesmo, aberto em seu colo, e segurou a mão direita com firmeza. O sangue não exatamente escorria, mas desenhava um caminho por entre palma e punho. Laura apertava a mão como se promovesse a sangria. E em silêncio e desligamento do mundo, ingenuamente, purgou ali mesmo uma ou outra falta que ficou pelo caminho.

Quanto tempo durou o retrato hiperrealista? Instantes? Horas? Nem ela nem eu sabemos. O fato é que Laura só voltou a si quando, após alguns barulhos longínquos de chaves e murmúrios fáticos, ele sem nada dizer ajoelhou-se e colocou o indicador banhado de sangue na boca. Não lambeu, não chupou, não pediu licença: acolheu dentro de si um corpo que não era dele, mas também não era mais dela. O humor não tinha gosto de ferro, era amargo.

Ao piscar e abrir os olhos já abertos, Laura viu que fora pega. Que estava num lugar desconhecido, que não respondia por si. Que havia um abismo entre o que sabia de si e o que viu.

Recolheu a mão junto ao peito e, tomada de pânico, conseguiu pela primeira vez dizer nada.

escamas

quando algo está finalmente pronto
é hora de deixá-lo
quando um olho não tem cor
quando uma cor não diz
a que vem
é hora de deixar
passar
deixar
estar
(h)a lagoa (h)á de secar
e eu hei
de ver o
jacaré
dançar
(num sapateado
subreptício)

Chá com Pangloss, Pão com Euler

Por vezes, nossa vida é uma equação de primeiro grau: há apenas um resultado, independentemente do número de termos. Para alguns, é inclusive um resultado necessariamente positivo: vivemos no melhor dos mundos possíveis.

Mas também a vida pode ela mesma ser uma equação cujo resultado não importa muito, e quem dá as cartas é a elegância.

e^{i \pi} + 1 = 0 \,\!

Que seria duma conversa entre Pangloss e Euler?

Benjamin e Proust, os otimistas

O procedimento de Proust não é a reflexão, e sim a consciência. Ele estava convencido de que não temos tempo de viver os verdadeiros dramas da existência que nos é destinada. É isso que nos faz envelhecer, nada mais. As rugas e dobras do rosto são as incrições deixadas pelas grandes paixões, pelos vícios, pelas intuições que nos falaram, sem que nada percebêssemos, porque nós, os proprietários, não estávamos em casa.

Walter Benjamin. “A imagem de Proust”, in: Walter Benjamin, Obras escolhidas. Vol. I: Magia e técnica, arte e política. São Paulo, Brasiliense, 2011, p. 46.

Walter, é preciso dizer que hoje temos delivery. Por meio de uma ou outra tecnologia, mimetizamos todas as coisas do mundo, mergulhados no conforto e alegria do lar. Do lar do corpo, da consciência e do mutismo.

deliver us not into the bitter pains

apertou as mãos
fechou os olhos com mais força
e pediu a deus que lhe guardasse o cachorrinho
usava um pijama que desconhecia papa-bolinhas e estampas tristes
no fundo sabia que o que era a morte
era também todo um resto de coisas
imprevisíveis

anos mais tarde, lembrou da situação quando o paquera – ao som de fundo de um bom Jamiroquai – disse o seu nome, Bóris. Dali a pouco, entre cheiros e beijos, arrependeu-se de fingir-se bêbada. Esfinge de um enigma sem pergunta, devorou-a.

Ao final, quando ouviu o silêncio, percebeu que balbuciava.

Anjinho da guarda
Minha doce companhia
Não me abandone
Nem de noite, nem de dia

E entendeu que morte sem vazio é ruim, mas vazio sem morte é pior.

Cielo

- É bicho, mas um dia a conta chega.
- Como assim Zé? Que porra de conta?
- Você não queria um conselho?
- Queria.
- Então, meu conselho é: tua conta tá pra chegar. E pra ela não tem dia do pendura.

Dei um gole na cerveja e parei de fingir.

- Mas eu não fiz nada. Você sabe.
- Não, mas vai pagar por não ter feito.

Levanto o braço e assino no ar.

- Débito ou crédito senhor?
- Crédito.
- A senha por favor.

Respirei fundo e soube de tudo ali, naquele espaço de tempo entre o rosto virado e o botão verde de borracha gasta. Chove muito, e é como num raio que ilumina uma cidade em caos. E vejo mais do que um skyline conhecido contra um céu sujo. Ouço a tormenta de cada criança, cada deslizamento, cada batida, cada grito. Há ratos brotando do esgoto. Eu respiro fundo. Vejo sacos de lixo flutuando como cadáveres estufados, as bocas de lobo cospem uma água escura que nem merece o nome. Há tempestades que purificam e outras que destroem. Mas não importa mais. A cidade está tomada pelo pânico e tudo o que se sente é um cheiro de morte, doce e intenso, que vem até a boca e desce pro estômago. É frio. Eu respiro fundo e digo a mim mesmo que vai passar.

- Aqui deu senha inválida, senhor.

De Luxemburgo à Meinhof, com escala em Iavelberg

Todo grande altruísta e todo grande covarde partilham uma característica comum: a vaidade.

Mas não para as mulheres.

E a dessimetria de gênero até aí faz sua dancinha, gritando para quem quiser ouvir que cobardia e selflessness são inaplicáveis às mulheres.

Eita mundo estranho. Covardemente estranho.