Patrícia tinha 7 anos e um desejo: Comer uma pêra.
Foi assim que saiu de casa, rumo à venda da esquina. Independente como era, andou por entre as gôndolas – que naquela época se chamavam prateleiras – até que avistou alí no canto as tais das pêras.
Escolheu com cuidado a pêra que comeria. Segurava a fruta pelo talo, girando, olhando e procurando alguma imperfeição. Não a encontrou. Pelo menos não olhando.
Chegou em casa, a lavou por minutos. Sua mãe olhava de canto de olho, (sor)rindo levemente de sua pequena Paty.
Foi quando, despreocupadamente, nossa heroína mordeu sua pêra e aconteceu. Perdera seu dente-de-leite!!!
Ficou ele lá, enfiado na pêra a espera de alguma reação. Era agora um dente livre, como havia sido Patrícia minutos antes.
Ah, liberdade, esta coisinha traiçoera!
Patrícia, estarrecida, olha para seu pai e diz com os olhos mareados
-Pai, eu quero colocar devolta! Quero meu dente!
Seu Pai respondeu apenas o essencial: a mentira que lhe faltava.
-Ah, acho que até dá querida…
(Patrícia ficou surpresa.)
Segurando a pêra, retirou o dente com cautela e voltou-se para a daminha que o fitava a espera de uma solução.
-É… é… acho que dá para colocar de novo sim. Mas… você quer? Quer colocar seu dente? Ele parece meio amarelinho e tristonho… Faz assim, você não quer esperar crescer o outro, daí você escolhe qual você prefere? Acho que é melhor né?
( . . .)
É claro que o Pai foi bem sucedido em sua empreitada. Patrícia teve lindos dentes, um fim de infância maravilhoso e casou-se aos 27 anos com um rapaz que amava. Este não é o ponto.
Naquele dia, Patrícia entendeu o essencial: Pais mentem. Pessoas mentem. Entendeu, ao seu modo, que pessoas são como pêras. Sempre com imperfeições, – visíveis ou não – sejam amassadas ou duras demais. Sentiu a verdade e foi feliz.
13 Julho , 2009 às 4:42 am |
às vezes nasce outro torto, amarelo, encavalado, mas bem enraizado. uns tentam arrumar, outros o aceita torto, o importante é que exerce bem sua função… apesar de… torto!