Tocava o alarme. O sinal. A sineta. Já não lembro como se chamava aquele som. O que para todos soava como liberdade para mim soava um martírio: o recreio.
Era a quarta série. Meu colégio, tradicionalíssimo, tinha – escondida – uma vantagem: Todas éramos obrigadas a usar a mesma roupa. A tal saia xadrez e a camisa branca emblemada, me ajudavam-me a me esconder-me de mim mesma. Sofria de uma vergonha desmedida. Sentia-me tão feia e desajeitada quando andava que mais ou menos duas vezes por mês fingia uma dor qualquer para não sair da sala no recreio. Sempre achei que a Professora Dona Malena sabia que eu mentia.
Mas todas estas lembranças parecem agora apagadas e foscas perto daquele dia de nitidez, dia de lucidez.
Era um 13 de abril e o sol batia fraco em nossas carteiras. Dona Malena dava aula de história, a Guerra das Rosas. Eu brincava com meu pote de nanquim, passando o dedo na borda, tentando chegar o mais perto da tinta fresca sem manchar o indicador. Sempre conseguia. Ainda acho que é porque tinha medo de arriscar a chegar mais perto de verdade daquela tinta escura e inútil. Mas justamente naquele dia, o sinal tocou quando passava meu dedo bem próximo à tinta. Manchei-me no susto. O coração batia forte, palpitava pela sensação de descontrole que tomou conta do meu corpo. Assustara-me.
Foi o único dia que fui correndo ao pátio. Como quem segura uma mão que sangra, minha esquerda conduzia a direita ao banheiro, com o dedo virado para cima na esperança de sujar menos ainda qualquer coisa que fosse.
Longo era o caminho até o banheiro. Desisto, vou ao bebedouro. Sua pia era de uma louça alva com pequenas rachaduras acinzentadas perto do ralo. Lembro com clareza do fio negro circulando e circulando o ralo antes de encontrar seu destino. Deleitava-me com a imagem e até sorria.
Foi quando aconteceu.
Senti uma presença atrás de mim e lentamente me virei. Vi uma menina de olhos negros, rasos, cabelos bem escuros e longos que caíam como delicadas plumas em seus ombros. Seus lábios eram cheios e sua pele morena parecia quase falar comigo, me chamar para si.
Olhou para mim com naturalidade, sorriu e disse:
-Qual o seu nome?
Fiquei sem palavras por instantes. E como que por magia, meus lábios se mexeram e disse:
-Dora, meu nome é Dora.
Aquele foi o dia mais perfumado de minha vida. Culpo o nanquim.