Com sua ridiculamente desbotada faixa na cabeça, João, o corredor, corria.
Na arrastada manhã o ar seco lhe ventava particularmente rápido: era a pressa que queimava seus pés e o conduzia pra frente.
Um daqueles poucos momentos em que não pensava em nada. João apenas corria. Desconhecido de epifanias aquele fato foi esquecido semanas depois. Aconteceu o seguinte:
Dava-se sua dança bípede de calcanhar e ponta, calcanhar e ponta, calcanhar e ponta. Está tudo tudo indo muito bem. Faz mais de quatro minutos e um bocado de segundos que João só corre, sem nada pensar ou lembrar. Eis que invade sem permissão sua boca um gosto familiar. O susto. Sente primeiro embaixo da língua, depois no céu da boca, até que aquele cheiro, gosto e textura lhe tomam a boca e a mente de assalto: era daquele beijo. Só o beijo dela tinha aquilo. E como poderia, passados tantos anos, lembrar assim sem querer de um gosto? Tamanha foi a sensação que o esportista se deixou parar. Colocando as mãos na cintura e franzindo a testa, disse cansado:
-Putz grila.
Eram os anos noventa. João estava lá, correndo antes de todo mundo. Quando Nike 10k ainda nem sonhava em nascer, João, o corredor, já corria. Mas naquele dia, voltou andando cabisbaixo pra casa. Tomou um banho e lembrou. Descobrindo o valor de um gosto, ficou a mexer a língua devagarinho por dias, como que tentando voltar a sentir aquele cheio-gosto. Sem sucesso, foi esquecendo seu passado e voltando a correr como antes.
João, 42 anos e uma resolução: não voltar pro sertão.