Escrevi-lhe um verso versátil
Que coubesse em teu bolso
Pequenino de maneiras,
O tal verso se escondeu
Não achas nem que queiras
Onde o verso se meteu?
Ah verso fujão… onde estará você?
Escrevi-lhe um verso versátil
Que coubesse em teu bolso
Pequenino de maneiras,
O tal verso se escondeu
Não achas nem que queiras
Onde o verso se meteu?
Ah verso fujão… onde estará você?
Com sua ridiculamente desbotada faixa na cabeça, João, o corredor, corria.
Na arrastada manhã o ar seco lhe ventava particularmente rápido: era a pressa que queimava seus pés e o conduzia pra frente.
Um daqueles poucos momentos em que não pensava em nada. João apenas corria. Desconhecido de epifanias aquele fato foi esquecido semanas depois. Aconteceu o seguinte:
Dava-se sua dança bípede de calcanhar e ponta, calcanhar e ponta, calcanhar e ponta. Está tudo tudo indo muito bem. Faz mais de quatro minutos e um bocado de segundos que João só corre, sem nada pensar ou lembrar. Eis que invade sem permissão sua boca um gosto familiar. O susto. Sente primeiro embaixo da língua, depois no céu da boca, até que aquele cheiro, gosto e textura lhe tomam a boca e a mente de assalto: era daquele beijo. Só o beijo dela tinha aquilo. E como poderia, passados tantos anos, lembrar assim sem querer de um gosto? Tamanha foi a sensação que o esportista se deixou parar. Colocando as mãos na cintura e franzindo a testa, disse cansado:
-Putz grila.
Eram os anos noventa. João estava lá, correndo antes de todo mundo. Quando Nike 10k ainda nem sonhava em nascer, João, o corredor, já corria. Mas naquele dia, voltou andando cabisbaixo pra casa. Tomou um banho e lembrou. Descobrindo o valor de um gosto, ficou a mexer a língua devagarinho por dias, como que tentando voltar a sentir aquele cheio-gosto. Sem sucesso, foi esquecendo seu passado e voltando a correr como antes.
João, 42 anos e uma resolução: não voltar pro sertão.
Derretendo-se em meias verdades
Vem e vão vossas sinceridades
E
Que a cada virgula e palavra
Tal qual uma mordida crava
Em
Meus versos calcados em mil regras
A volúpia do corpo em verbo negas
Cada
Provar que a todo tempo sou ausência
Da mais tênue matiz de uma carência
Verso
Que por longos cento e sessenta e quatro dias
Tu, o trovador das entrelinhas te intrometias
Jaz
Agora escrito, portanto, morto e desenterrado
À espera de um sentido menos mouco e calado
Minha
Aliteração de improviso é pobre
Ante ação dum riso que se nobre
Verdade
Esconde de um mundo sem cores e acento
A realidade única de uma noite sem alento

“A persistência da memória” (Menos torta, menos real)
A paixão é como um io-io da coca-cola: Vermelha, leve e cheia de vais e vens. Em geral não dura, mas quando dura o legal é ver a cara dos seus amigos quando descobrem. Eles ficarão embasbacados. Mas em geral, não dura.
Abraçavam-se com força. Um beijo. Último beijo. Mais um último beijo.
Os meses.
Retornaria naquela mesma noite à sua cidade. A guerra, as mortes o horror. O inverno. Nada daquilo importava, como se tudo o que vivera nos últimos meses pudesse se reduzir a pequenina palavra saudade. Pequenina. Até aquele momento não sabia como tinha conseguido viver, dormir e acordar com essa falta que lhe rasgava o peito mais do que qualquer projétil. Que estranha força foi essa que permitira o soldado viver tantas noites frias a pensar em sua amada, sua casa, seu ninho, sua única vida? Pouco importa. Pensou ouvir pela terceira vez o som do trem. Pensando certo, sorriu. Era ele. Poucas horas o separavam da vida, cidade que forrava o entorno do seu castelo de tijolos de perfeição. Tão pouco agora, tão pouco, pouquíssimo. Tão pouco que não comportava medidas, de forma que era tão inexplicável quanto o infinito: Era na verdade muito.
Adormeceu enquanto olhava pela janela a luz da lua por detrás das densas nuvens. Umsonhoconfusodepontesquebradascriançascorrendoeumafumaçasemfim – pausa vozes em língua estrangeira, sono – umpesadelodegeloneveemadeirasescurasdentrodosonhoederrepente Acordara.
Com pernas trêmulas, desceu. Caminhou como que reaprendendo a andar em direção a própria casa. Chegando em sua rua, foi tomado pelo medo gélido de ter sido esquecido, trocado, ignorado ou qualquer ‘ado’ que não esperado, amado e respeitado. Parou e sentiu. Amava-a
Amava-a e precisou de uma guerra para tanto. Compreendeu, devagar, o abismo que se abrira sobre sua cabeça. Tudo que precisava era que o mundo virasse. Mundo que tanto gira, poderia ele virar de ponta-cabeça?
Olhou para frente e nada viu. Seu olhos marearam. No ápice de sua emoção vazia, olhou para cima, procurando seu abismo particular. E então foi como se a lágrima ficasse no lugar e só sua cabeça tivesse levantado. Parada, a lágrima percorreu seu rosto parando por entre a barba, perdida como ele próprio em sua angústia. O soldado então soltou sua sacola e caminhou ao passo do tempo rumo a sua casa por entre a neve, despindo-se lentamente. Primeiro seu cap, depois seu casaco, camisa, o sapato, as meias, a calça e as ceroulas.
Por fim, tocando levemente a maçaneta escura, renasceu.
Voltara para casa.
Aguardei sua carta
Ela veio
Curtíssima
3 páginas
2 cores
1 adeus
Apenas um adeus, fugitivo, ao final de nossa sentença
Selou todo um destino apartado, filosofia intensa
Um adeus, cinco letras frias, sem repensa
Quatro de outubro, dor sem precedência
Naquela fria tarde sem cadência
Um choro que não pensa
O triunfo da doença
De finalidade tensa
Numa única crença
Do fim
Rezei para que teus preâmbulos durassem para sempre
Aguardei sua carta
Guardei sua carta
Dei sua carta
Eis sua carta
Sua carta
Sua carta
Sua carta
Sua ata de sucata
Recusava-se a usar qualquer marcador de página.
Para ela a memória, tal qual as vísceras daqueles que fazem greve de fome, uma vez atrofiada, demorava a recompor-se em sanidade novamente. Ou simplesmente morria. Tal era a sua aversão ao esquecimento que passara certa vez três noites em claro a lembrar do primeiro romance que havia lido ainda no colégio. Cada personagem, frase marcante, reviravolta deveria ser cuidadosamente colocada em seu lugar, organizando as lembranças em prateleiras muito bem definidas. Esta era sua metáfora: a biblioteca da memória.
Como bem nos mostra a história, não se precisa de muito para reduzir tudo a fumaça e pó. Em uma manhã de junho, Carina viveu suas chamas de Alexandria enquanto repetia descontroladamente o mantra: Quem sou eu? Quem sou eu? Quem sou eu?
Não tardou para encontrar a reposta que lhe faltava. Curara-se de sua hipertrofia memoriosa. Passou a usar marcadores de página, agendas e redescobriu o rascunho. Apaixonada, deu graças e disse baixinho: Te esqueço em veredas, sinto e penso em verdades, versos e verbos de amor…
- EDITADO -

Gustav Klimt, Der Kuß
Pode, claro que pode.
Dit le candidat: On divã moç parar?