Prioritaire
Paris, 23 de março de 1951
Querida,
Nem com as mil palavras que eu ensaiei poderia desculpar-me por ontem. Eu nunca deveria ter gritado com você. Aquele vaso pela janela, sabemos, foi um erro. Mas é que tudo foi acontecendo derepente, e quando dei por mim já estava enfurecido, lhe empurrando com força e batendo em você.
Você sabe que aquilo doeu mais em mim do que em você.
Sabemos que nenhum de nós é inocente nesta história toda, odeio com todas as minhas forças sua ironia fina, e seu desdém falso. Bem sabe que são eles que acendem meu pavio.
Curto.
Tenho certeza que aquelas coisas que você me disse sobre nunca mais nos vermos e para eu sumir de sua vida foram apenas fruto da raiva, coisa de momento.
Aguardo impacientente seu retorno. Bem sabemos que Coimbra não é lugar para você. Deixa tua mamãezinha e volte para quem te ama.
Um grande beijo
Antônio Anônimo