À Dra. H.
Carissíma,
É com muito esforço que escrevo esta carta. Preguiça. Devo confessar surpresa em receber, após tantos anos, uma carta de conteúdo tão intenso e fecundo. Fecundo pelas questões que levanta, questões de profundidade filosófica que muito me impressionam, mesmo vindas de você. A maturidade lhe trouxe inadjetivável brilhantismo argumentativo e de estruturação, embora lhe tenha levado muito da docilidade. Docilidade que lhe era tão cara. Que barganha feita com a vida pôde converter a Sra. de modo tão assustador no que foi apresentado na referida carta? Houve então um sofrimento grande o bastante para salgar todo um campo fecundo de felicidades e vivências afetivas indefectíveis? (Veja que minha queda por aliterações ainda se dá.) De minha parte, posso dizer que pouco ou nada mudou. O tempo trouxe resignação de práticas já enfraquecidas, e refinamento do que valia a pena. Envelheci. E só. Não creio que nada tenha sido para melhor.
Como sua capacidade de observação já deve ter lhe feito atentar, me restringirei aqui apenas à questões de foro teórico-reflexivos, deixando de lado esclarecimentos acerca de minha vida passada e presente. Odeio fazê-lo em texto. Bem sabe meu endereço. Se o carteiro consegue, tenho certeza que não encontrará dificuldades maiores para dizer tudo o que pensa, e ouvir tudo o que merece, sem o subterfúgio da tinta.
As próximas linhas serão dedicadas puramente às minhas pontuações sobre suas reflexões.
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