Enxertos da Memória Parte III: O Dente

12 Julho , 2009 at 4:11 pm (.txt)

Patrícia tinha 7 anos e um desejo: Comer uma pêra.

Foi assim que saiu de casa, rumo à venda da esquina. Independente como era, andou por entre as gôndolas – que naquela época se chamavam prateleiras – até que avistou alí no canto as tais das pêras.

Escolheu com cuidado a pêra que comeria. Segurava a fruta pelo talo, girando, olhando e procurando alguma imperfeição. Não a encontrou. Pelo menos não olhando.

Chegou em casa, a lavou por minutos. Sua mãe olhava de canto de olho, (sor)rindo levemente de sua pequena Paty.

Foi quando, despreocupadamente, nossa heroína mordeu sua pêra e aconteceu. Perdera seu dente-de-leite!!!
Ficou ele lá, enfiado na pêra a espera de alguma reação. Era agora um dente livre, como havia sido Patrícia minutos antes.

Ah, liberdade, esta coisinha traiçoera!

Patrícia, estarrecida, olha para seu pai e diz com os olhos mareados

-Pai, eu quero colocar devolta! Quero meu dente!

Seu Pai respondeu apenas o essencial: a mentira que lhe faltava.

-Ah, acho que até dá querida…

(Patrícia ficou surpresa.)

Segurando a pêra, retirou o dente com cautela e voltou-se para a daminha que o fitava a espera de uma solução.

-É… é… acho que dá para colocar de novo sim. Mas… você quer? Quer colocar seu dente? Ele parece meio amarelinho e tristonho… Faz assim, você não quer esperar crescer o outro, daí você escolhe qual você prefere? Acho que é melhor né?

( . . .)

É claro que o Pai foi bem sucedido em sua empreitada. Patrícia teve lindos dentes, um fim de infância maravilhoso e casou-se aos 27 anos com um rapaz que amava. Este não é o ponto.

Naquele dia, Patrícia entendeu o essencial: Pais mentem. Pessoas mentem. Entendeu, ao seu modo, que pessoas são como pêras. Sempre com imperfeições, – visíveis ou não – sejam amassadas ou duras demais. Sentiu a verdade e foi feliz.

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Série Diálogos

10 Julho , 2009 at 4:43 pm (.txt)

Dois homens:

DAN: When she came here, do you think she enjoyed it?
LARRY: I didn’t do it to give her a nice time. I fucked her to fuck you up. A good fight is never clean. And yeah, of course she enjoyed it. As you know, she loves a guilty fuck.
DAN: You’re an animal.
LARRY: Yeah? What are you?
DAN: You think love is simple. You think the heart is like a diagram.
LARRY: Have you ever see a human heart? It looks like a fist wrapped in blood! Go fuck yourself. You writer! You liar!

Fonte: Closer (2004)

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Três tempos

8 Julho , 2009 at 9:43 pm (.jpg, .txt)

Se há três lutos na vida, deve haver três momentos de festejo e regozijo. Três lutos, três mortes: a morte dos pais – famigerada revolta adolescente -; A morte da independência – a vinda dos filhos; e finalmente a morte dos filhos – a ’síndrome do ninho vazio’.

Quais seriam as contrapartidas lógicas destes três lutos?

Impossível de saber. Ou melhor, de simbolizar. Mas nesses momentos, uma imagem consegue dizer o que a boca se recusa. Os três tempos em três planos:

Os três temposFotógrafo: Dave Morris

Porque a verdade está sempre para além das palavras. Para meu infortúnio.

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Falando em 90’s

5 Julho , 2009 at 7:45 pm (.wav)

Nossa, tinha é quase esquecido dessa música.

Boas lembranças, más recordações e uma ou outra memória contaminada de halls verde…

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Do Bloco

5 Julho , 2009 at 12:20 am (.txt)

Após 15 meses, o Bloco entra em nova fase.

Seguindo a sugestão de Mlle. Beca, os escritos serão doravante assinados.

Haverá também uma tentativa de remodelação gráfica. Aceito sugestões!

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Sujeitos Barrados no Baile

4 Julho , 2009 at 4:02 am (.txt, .wav)

Para todos aqueles que, de uma forma ou de outra, viveram a alegria de um bailinho de garagem nos anos 90.

One Of Us, J.O.

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Dom Pedro I: Um cara firmeza

2 Julho , 2009 at 1:17 pm (.jpg, .txt)

Eis que descobri que nosso primeiro monarca foi convidado a ser Soberano em três outras terrinhas além da nossa.

O Barbudo recusou-se veementemente. Escreveu-se sobre sua verwerfung à coroa Grega:

[...] “príncipe regente, porém, não traiu a confiança nele depositada pela nação brasileira, que o aclamaria seu Defensor Perpétuo. Amando verdadeiramente o povo da pátria que o viu nascer e tendo a intuição profunda da missão histórica (!!!) que lhe seria dada desempenhar na terra bárbara e selvagem do Novo Continente, resistiu à vaidade de ostentar em sua fronte o diadema da pátria de Homero e de Péricles”. (In: COSTA, Sérgio Corrêa da. As quatro coroas de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p.173, apud Wikipedia, claro)

É isso aí Pedrão! Mandou benzaço.

o Natal do Menino Imperador

D. Pedro I, interpretado por um dos arautos da classe artística brasileira, Prof. Dr. Reynaldo Gianecchini

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Enxertos da Memória – Parte II: O nanquim

2 Julho , 2009 at 1:06 am (.txt)

Tocava o alarme. O sinal. A sineta. Já não lembro como se chamava aquele som. O que para todos soava como liberdade para mim soava um martírio: o recreio.

Era a quarta série. Meu colégio, tradicionalíssimo, tinha – escondida – uma vantagem: Todas éramos obrigadas a usar a mesma roupa. A tal saia xadrez e a camisa branca emblemada, me ajudavam-me a me esconder-me de mim mesma. Sofria de uma vergonha desmedida. Sentia-me tão feia e desajeitada quando andava que mais ou menos duas vezes por mês fingia uma dor qualquer para não sair da sala no recreio. Sempre achei que a Professora Dona Malena sabia que eu mentia.

Mas todas estas lembranças parecem agora apagadas e foscas perto daquele dia de nitidez, dia de lucidez.

Era um 13 de abril e o sol batia fraco em nossas carteiras. Dona Malena dava aula de história, a Guerra das Rosas. Eu brincava com meu pote de nanquim, passando o dedo na borda, tentando chegar o mais perto da tinta fresca sem manchar o indicador. Sempre conseguia. Ainda acho que é porque tinha medo de arriscar a chegar mais perto de verdade daquela tinta escura e inútil. Mas justamente naquele dia, o sinal tocou quando passava meu dedo bem próximo à tinta. Manchei-me no susto. O coração batia forte, palpitava pela sensação de descontrole que tomou conta do meu corpo. Assustara-me.

Foi o único dia que fui correndo ao pátio. Como quem segura uma mão que sangra, minha esquerda conduzia a direita ao banheiro, com o dedo virado para cima na esperança de sujar menos ainda qualquer coisa que fosse.

Longo era o caminho até o banheiro. Desisto, vou ao bebedouro. Sua pia era de uma louça alva com pequenas rachaduras acinzentadas perto do ralo. Lembro com clareza do fio negro circulando e circulando o ralo antes de encontrar seu destino. Deleitava-me com a imagem e até sorria.

Foi quando aconteceu.

Senti uma presença atrás de mim e lentamente me virei. Vi uma menina de olhos negros, rasos, cabelos bem escuros e longos que caíam como delicadas plumas em seus ombros. Seus lábios eram cheios e sua pele morena parecia quase falar comigo, me chamar para si.

Olhou para mim com naturalidade, sorriu e disse:

-Qual o seu nome?

Fiquei sem palavras por instantes. E como que por magia, meus lábios se mexeram e disse:

-Dora, meu nome é Dora.

Aquele foi o dia mais perfumado de minha vida. Culpo o nanquim.

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O verso e o verbo

29 Junho , 2009 at 1:43 am (.txt)

Escrevi-lhe um verso versátil
Que coubesse em teu bolso

Pequenino de maneiras,
O tal verso se escondeu
Não achas nem que queiras
Onde o verso se meteu?

Ah verso fujão… onde estará você?

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Enxertos de memória – Parte I: O corredor

25 Junho , 2009 at 1:29 am (.txt)

Com sua ridiculamente desbotada faixa na cabeça, João, o corredor, corria.
Na arrastada manhã o ar seco lhe ventava particularmente rápido: era a pressa que queimava seus pés e o conduzia pra frente.
Um daqueles poucos momentos em que não pensava em nada. João apenas corria. Desconhecido de epifanias aquele fato foi esquecido semanas depois. Aconteceu o seguinte:

Dava-se sua dança bípede de calcanhar e ponta, calcanhar e ponta, calcanhar e ponta. Está tudo tudo indo muito bem. Faz mais de quatro minutos e um bocado de segundos que João só corre, sem nada pensar ou lembrar. Eis que invade sem permissão sua boca um gosto familiar. O susto. Sente primeiro embaixo da língua, depois no céu da boca, até que aquele cheiro, gosto e textura lhe tomam a boca e a mente de assalto: era daquele beijo. Só o beijo dela tinha aquilo. E como poderia, passados tantos anos, lembrar assim sem querer de um gosto? Tamanha foi a sensação que o esportista se deixou parar. Colocando as mãos na cintura e franzindo a testa, disse cansado:

-Putz grila.

Eram os anos noventa. João estava lá, correndo antes de todo mundo. Quando Nike 10k ainda nem sonhava em nascer, João, o corredor, já corria. Mas naquele dia, voltou andando cabisbaixo pra casa. Tomou um banho e lembrou. Descobrindo o valor de um gosto, ficou a mexer a língua devagarinho por dias, como que tentando voltar a sentir aquele cheio-gosto. Sem sucesso, foi esquecendo seu passado e voltando a correr como antes.

João, 42 anos e uma resolução: não voltar pro sertão.

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