Outono

29 janeiro , 2010 por Pedro A.

E o teu castanho é meus devaneios
Se abre os dois, confesso quem olha
Quando me pegam de canto, alheios
Meus outros dois em prantos molha

Pousando os seus em chuva qualquer
Sofro e atesto triste o mal-me-quer
Descobrindo no olhar de uma mulher
A ausência de um poesia em rima
Acabada
E a presença dum inexplicável fim
Duma poesia concreta, reta e fria

Mas teu castanho ainda é meus devaneios

21 janeiro , 2010 por Pedro A.

Tudo era chuva naquela cidade.

Pequena ao seu modo, tudo nela estava há uma palavra de distância: chuva. Seus impermeáveis habitantes perceberam que seu autor estava ficando desgostoso de seu texto e havia uma última chance de sua cidadezinha clichê não ir parar nos rascunhos: mudar tudo.

Dois dois pontos, e dois parágrafos e meio depois, nada ainda tinha acontecido.

José, o prefeito resolveu pedir a palavra: Senhoras e senhores, se acalmem. É apenas uma crise criativa passageira. Em breve ele vai se reestabilizar e poderemos deixar sua mente doentia em segurança. As barcas que nos levarão à internet já estão preparadas e agora é uma questão de tempo. Peço que mantenham seus guarda-chuvas abertos e aguardem mais informações. Obrigado.

Mas nem o prefeito conseguiu dar fim à essa falta de vento para as velas da criatividade. Se chovia na cidade da imaginação, ventava em minha casa.

Pequenina, escondida de todos e bem frágil. (Praticamente um HTP de criança deprimida) Lá era noite e ventava alto. Uma vela iluminava o teclado e suas mãos corriam suadas pela sua fronte e cãs. Apertava com força sua cabeça e por vezes batia nela, como que numa tentativa de tirar mais coisas dali. Lembrou de sua infância distante, quando batia com força a lata do grosso leite moça para que o tal caísse o mais depressa possível, antes de sua mãe pegá-lo no flagra, mamando mais uma vez no leite condensado. As surrras, ai as surras… tantas justas, tantas injustas, tantas ridículas. Sorriu a pensar quantas latas foram tomadas sem que ninguém notasse. Era um larápio!

Foi assim que a cidade virou uma grande lata de leite condensado e seus habitantes lapadas de cinta. Ou o inverso, uma vez que as latas e as surras vieram muito antes dos habitantes e sua cidade. Mas a questão que intrigava os dois pernilongos que passavam por alí era se, de fato, as latas e as surras teriam (re-existido) não fosse o pré-post daquele escritor lembrador. Neste caso, a lembrança deve tudo à imaginação. Eram pernilongos idealistas.

Mas o outro escritor, o que escrevia sobre o primeiro também estava em uma crise criativa. Imaginou então um loop infinito e aonde isto levaria. Encontrando uma impossibilidade lógica de resolução da aporia, resolveu publicar e olhar pra ver como que ficava. Vamo ver se dura. Putz acho que nem vai rolar. Foda-se, mostro pra Ana e deleto

Jazz

1 janeiro , 2010 por Pedro A.

A vida é improvisos. Seja um comportado solo de piano moderato ma non troppo, seja um louco jazz estudado.

Só esqueci de saber que o improviso só se faz do que se tem aprendido. Improviso é maquiar o de sempre da caxola. De modo que viver é acordar o mesmo, na mesma cama, com a mesma ceroula, no mesmo quarto com uma posição diferente.

O que é uma grande mentira.

Viver é o desaber.

Papel

28 dezembro , 2009 por Pedro A.

Era uma caneta esquecida. Bic azul de nascimento, festejou quando ganhou uma tampa vermelha. Pensava, com sua cabeça de tungstênio já seca, quantas outras como ela eram bicolores. Como tinha tempo, decobriu rapidamente um número alto. Encontrou a verdade e foi feliz.

Mas uma menina pegou a caneta e escreveu as poesias mais tóxicas e feias do mundo. A caneta ficou triste e falhou. Foi para o lixo.

A menina, por isso, nunca mais escreveu e tornou-se promotora em Guarulhos e por 27 anos. Atormentou a vida dos funcionarios por 26, dos juízes por 12 e da moça que servia o café por toda a vida. Morreu de nervoso.

Mas a bic foi pro lixo e saiu de lá pela boca de um cachorro de raça. Acabou ficando embaixo da cama por muito tempo. Lá, deu pra pensar mais ainda. Se tornara uma caneta reflexiva, blasé e um tanto empoeirada.

Passaram-se bons anos. Imagine aí quantos você quiser. Bote 3 e tire 12. Se deu negativo volte ao começo do post. Se deu entre 1-12 vá ler Borges. Entre 12-20 vá namorar. Mais do que 20 então você leu Senhor dos Anéis direitinho e pode continuar.

Encontraram a caneta. É, se pá era destino. A caneta já pagava de intelectual entre as gerações de baratas que faziam visitas periódicas. Mas já era hora de voltar a ver o sol.

Foi um moleque que visitava a casa pelo verão. Bem calado, ele pegou a caneta e já percebeu que não se tratava de uma caneta qualquer. Tinha um desing antigo, tampa vermelha (naquela época e naquele país não havia bic vermelha). Viu que era coisa fina, peça de museu. Menino esperto. Já se imaginava dando entrevistas por ter encontrado antigüidade tão rara, que ninguém mais no mundo possuia. Entrevistas com os maiores jornais, encontro com políticos. O presidente em pessoa lhe daria uma gorda oferta pela caneta antiga. Mas não cederia. Um museu para a caneta seria construído, e a partir das doações ao redor do mundo, inúmeras outras canetas antigas (mas nunca tão velhas quanto a nossa) seriam recolhidas e o prédio ocuparia o atual palácio de governo, visitado por nosso moleque três dias antes. Acreditava ter visto o presidente passando rapidamente para o elevador. Depois de almoçar, voltou a fantasiar sobre ele, a caneta e o futuro. Dessa vez aparecia uma outra caneta! Portada por aquela menina linda da sexta série B, loira, olhos azuis e com braquetes brancos no aparelho. Aliás, a primeira menina a usar braquetes brancos na escola. E uma vez mostrou que tinha uma tatuagem de coração no ombro esquerdo, depois de voltar pra praia. Ela tinha uma caneta também. Eles casariam e comandariam o império de canetas juntos. Em alguns anos, construiríam uma imensa fábrica de canetas em formato de caneta. 1000 metros de altura, 700 de largura. As máquinas iriam construir as canetas a uma taxa de 20 por segundo por máquina e iriam jogar (cuspir) no centro do prédio. Elas caíriam de alturas diversas em uma enorme piscina (para promover a limpeza e tinturação das tampas, é claro) e seriam secas por um ventilador gigantesco e colocado em caixas por saguis que receberiam seus salários em bananas. Sempre quisera ter um sagui e uma fábrica. Achou um pouco estranho uma fábrica plantada no meio do nada em forma de caneta. Então pensou num campo inteiro de fábricas de caneta. Com fogo na ponta. A perder de vista. Afinal o mundo precisava escrever.

Mas nada disso aconteceu: seu pai mandou ele jogar a caneta seca fora. Dois dias depois o moleque voltou para casa, mais tarde descobriu o twitter e o youtube e programou até o fim dos seus dias.

Quando tudo se acabou no mundo, disseram os que sobraram por aqui que por pouco a velha bic não virava uma Mont Blanc. Seu espírito à espera do julgamento do juízo final ( que aconteceria dalí 13 dias, se tudo fosse bem. Mas pense em um purgatório cujo secretário geral é o Kafka, o juiz o Dostoiéviski, o faxineiro o Marx e o decorador o Goya. Se pá demoraria um pouco mais. Mas não muito. Ah! e mandaram avisar que esse papo de “já esperou uma eternidade, pode esperar mais um ou dois anos” é conversa de gerente de agência do bamerindos, dia antes da fusão.) pensou: Ufa!

Desessete

27 dezembro , 2009 por Pedro A.

É Cazuza… Les en vers de le psychanalysé

O amor (cantado) é tipo um seminário do Lacan: meio maluco, difícil, faltam notas de rodapé, referências e tá cheio de gente que acha que é balela.

Undead

19 dezembro , 2009 por Pedro A.

Bela Lugosi is…

…glam

Uma contradição em termos…

10 dezembro , 2009 por Pedro A.

Paradoxo for dummies: Imagine uma situação hipotética onde um líder mundial ao receber o Prêmio Nobel da Paz mencione em seu discurso a palavra Guerra mais de 40 vezes.

Por James Tillis

Conta a sabidez do populacho…

8 dezembro , 2009 por Pedro A.

Que no fim de semestre Lara deixou escapar um minuto livre de seu tempo.

Emigrado, virou um pensamento.

Assembler, por Kosmur

O Pequeno Príncipe para…

29 novembro , 2009 por Pedro A.

Cocaleiros:
Torna-te eternamente responsável por aquilo que aspiras

Economistas:
Torna-te eternamente responsável por aquilo que aplicas

Analistas lacanianos
Torna-te eternamente responsável pela barra que tocas

Acadêmicos
Torna-te eternamente responsável por aquilo que publicas

Lobbistas
Torna-te eternamente responsável por aquilo que arranjas

Estagiarias da casa branca
Torna-te eternamente responsável por aquilo que não engoles

Terroristas
Torna-te eternamente responsável por aquilo que explodes

Kayokos
Torna-te eternamente responsável por aquilo que… enfim.

Skinnerianos selvagens
Torna-te eternaMENTE responsável por aquilo que reforças.

Grupelhos de pseudo-esquerda da USP
Torna-te eternamente responsável, e ponto.

Summer e todas as mulheres astutas do mundo
Torna-te eternamente responsável pelo Tom e pelos homens românticos do mundo. E lhes dêem algodão doce.

Post em parceria com o vizinho de pandora.

Segredinho

29 novembro , 2009 por Pedro A.

Enquanto voltava de metrô do trabalho para casa, ficava imaginando, não sem vergonha, como seria encontrar o amor da sua vida no vagão do outro metrô. O que deveria fazer? Sorrir e tentar acenar para ela descer na próxima estação? Não, muito difícil… Tentar passar o telefone? Também não. Muito pouco tempo para ela anotar e muitos (sete) para guardar. Pensou em sorrir e gracejar durante o encontro e pegar o metrô sempre no mesmo horário. Era na verdade uma tática por dia, ou variações dos dias nos quais as táticas eram tão perfeitas que quase traziam seu sonho para mais perto da realidade.

Foram anos nos quais a volta para casa era um misto de desejos e planos. Os nove minutos e meio entre as três estações passavam rápidos por seus devaneios.

O fato é que durante aquele tempo, a fantasia era quem permitia João encarar a verdade única de que não encontraria o amor da sua vida. Este, de nome Maria, andava num corcel alado da VASP, muito acima das milhões de cabeças sonhadoras do metrô de São Paulo. Maria imaginava quando algum passageiro proporia-a em casamento, ali mesmo na ponte aérea.

É pena que João nunca olhou para cima, nem Maria para baixo.