o combo da semana

Constatação da semana:

Não é possível para nada nesse mundo ser plano e sonho ao mesmo tempo. Há de se escolher entre a coragem de querer o impossível ou a bravura de esculpir a realidade.

Imagem da semana:

Frase da semana:

Nós somos o que fazemos. O que não se faz nao existe. Portanto, só existimos quando fazemos. Nos dias que não fazemos, apenas duramos.

Padre Antônio Vieira

Música da semana:

Idade das Trevas

Nem só de suspiros viverá o bloco de notas.

Não é recente a posição do Governo do Estado de São Paulo em relação às questões sociais. Trata-se, antes e sempre, da tradução de toda sorte de problemas da cidade em questões de segurança pública. É o campo de debates e soluções Pólis infestado pelo Pater Familias. A novidade agora é que o que sempre foi feito no campo individual, de criminalização do sujeito, atinge assumidamente grupos. Seja os moradores de Pinheirinho, seja a Cracolândia, para o poder público, o crime da pobreza é cometido em bando.

A questão se desenha, afinal, em suas cores verdadeiras: a polícia não tem como alvos os autores dos delitos, mas uma parecela da população. Daí, inverte-se a lógica e os crimes começam a ser imputados sobre o grupo, já desvinculados de qualquer substrato concreto ou amparo legal.

Tudo isso para introduzir um texto que apresenta um dos numerosos casos de crime cometidos pelo Estado. Aqui em maiúscula mesmo.

Nilton Cardin/Folhapress

Nilton Cardin/Folhapress

Apenas um detalhe estético. Ao observar como os moradores de Pinheirinho prepararam-se para a invasão policial, algo chama a atenção. Os escudos (de plástico) e os elmos (capacetes de motoboy), apesar de imitarem a tropa de choque, lembram milícias romanas. É como se lutassem contra as invasões bárbaras, defendendo uma república que não existe mais. E todo mundo sabe o que acontece depois.

Sobre o bairro Pinheirinho: não, não há mais juízes em Berlim (22/01/2012)

Por Francisco Mata Machado Tavares
O fato é tão simples como estarrecedor. 9.600 (nove mil e seiscentas) pessoas vivem, há 8 (oito) anos, em um bairro da cidade de São José dos Campos conhecido como Pinheirinho. Estas pessoas são, todas, cidadãs de uma República cuja constituição, em seu artigo 6o, assegura, dentre outros, o direito fundamental à moradia, entendido como cláusula pétrea, ou seja, como garantia insusceptível de redução, senão mediante um golpe de Estado.
O terreno habitado por esses seres humanos não cumpria, até que eles ali chegassem, a sua função social. A mesma Constituição da República, em seu artigo 5o, também definido como cláusula que não se altera, condiciona a validade normativa do direito de propriedade ao cumprimento da respectiva função social. É majoritária, entre os constitucionalistas, a tese de que a referida dimensão funcional do direito à propriedade não se configura como limite (a exemplo dos direitos de vizinhança, servidões obrigatórias, etc.), mas como componente deontológica da situação proprietária. Em suma: sem obediência à função social, não há direito de propriedade válido neste país.
A massa falida de uma empresa chamada Selecta, cuja propriedade fora de um nababo detido em duas ocasiões por crimes de ordem fiscal e financeira, ostenta documentos que, formalmente, indicariam sua propriedade sobre o terreno onde as milhares de pessoas acima referidas possuem as respectivas moradias há quase um decênio. Ao solene arrepio do aspecto funcional do direito à propriedade privada, o Poder Judiciário do Estado de São Paulo optou por negar às famílias seu local de habitação, em favor da pessoa jurídica que, possivelmente, continuaria a manter, ali, um grande espaço vazio, transpondo a materialidade de uma vila com gente, comércio, igreja e histórias humanas em frio ativo que valorizaria o patrimônio de alguém, ao sabor das inexoráveis pressões inflacionárias do mercado imobiliário, definido pela inelasticidade da oferta. Em síntese: o Poder Judiciário malferiu dois artigos asseguradores de direitos fundamentais da Constituição (quinto e sexto), para expulsar pessoas humanas do seus lares, de modo a garantir que milionários aumentassem seus patrimônios. A prefeitura do município de São José dos Campos, assim como o Governo do Estado de São Paulo, endossaram tal prática.
Os moradores do bairro do Pinheirinho resistiram e, como resultado de sua abnegada luta, conquistaram, dentre outras vitórias, o interesse da União em considerar a desapropriação do terreno e, subsequentemente, implementar um projeto habitacional no local, política pública que contaria, dentre outras medidas, com a regularização fundiária da ocupação. Em suma, o Governo Federal, devidamente pressionado por ativistas e pela sociedade civil, acenou com a possibilidade de cumprir parte de suas obrigações prescritas no artigo 3o, inciso III, do Estatuto das Cidades, no que não fora acompanhado, lamentavelmente, pelos governos do Estado e do Município, os quais optaram por permanecer na ilegalidade.
De qualquer modo, tendo em vista o interesse jurídico da União na conflituosa questão, haja vista a necessidade de cumprimento do já citado artigo do Estatuto das Cidades, fez-se necessária a inclusão da Advocacia Geral da União – AGU no processo judicial e, por conseguinte, em respeito ao artigo 109 da Constituição, o deslocamento do feito para a Justiça Federal. Como consequência do desaforamento do processo em relação à Justiça Estadual de São Paulo, o Tribunal Regional Federal, órgão da Justiça Federal de 2a Instância, impôs a suspensão da ilegal determinação de despejo das 9,6 mil pessoas humanas que habitam o Pinheirinho, de modo a subtrair eficácia e validade de qualquer decisão sobre a matéria proferida no âmbito da justiça comum.
Ocorre, todavia, que não há juízes nesta Berlim proto-nazista sob a qual vivem os brasileiros do século XXI. Uma decisão judicial estadual de 1a Instância determinou que, em 22 de janeiro de 2012, as 9,6 mil pessoas fossem subtraídas do seu direito fundamental à moradia, em favor de uma massa falida que pretende manter o imóvel vazio, à espera de valorização ociosa incompatível com o princípio da função social da propriedade. É preciso que a situação fique bem clara: uma decisão judicial de 1a instância transgrediu um despacho da Justiça Federal de 2a instância e, ato contínuo, foi devidamente obedecida pelo Governo de São Paulo e sua Polícia Militar. Tudo para que quase 10 mil pessoas fossem, como ratos, jogadas nas ruas, sem destino, sem dignidade, sem direito a nada.
Mas a tragédia é ainda pior. O advogado das famílias despejadas foi ilegalmente detido. Um Senador da República (Eduardo Suplicy – PT/SP), um Deputado Federal (Ivan Valente – PSOL/SP) e um presidente de partido (Zé Maria de Almeida – PSTU/SP), foram ilegalmente sitiados em uma escola localizada nas proximidades do Bairro Pinheirinho e, dali, impedidos de sair, em clara situação de prisão ilegal. E, até aqui, início da tarde de 22 de janeiro, há relatos (ainda sujeitos à devida confirmação) de que houve vítimas fatais. A se confirmar tão trágica notícia, tratam-se de histórias de vida interrompidas pela ação bárbara de um Estado que não atua mais próximo da legalidade do que qualquer bando ou quadrilha. O certo é que pessoas foram retiradas de seus lares por bandidos perigosos, armados, sustentados por impostos adimplidos por todos os cidadãos e que atuam ao arrepio da Lei, tal como concretamente prescrita pelo Tribunal Regional Federal da 3a Região. Sem respaldo normativo, sem qualquer direito, sem nenhuma adequação à legalidade, como qualquer milícia ou grupo do crime organizado, o assim-chamado Poder Público irrompe contra uma válida decisão do Tribunal Regional Federal, aprisiona parlamentares, detém advogados (ao arrepio do artigo 7o da Lei 8.906) e impõe a barbárie, a selvageria e o terror contra 9,6 mil pessoas humanas que queriam apenas viver sob um teto e contar com um lugar para voltar, após extenuantes jornadas de trabalho. É a violência pura e sem discurso de justificação qualquer… Um horror de tal maneira nefasto, que só pode ser comparado aos mais virulentos atos do nazi-fascismo no Século XX.
Não se sabe o destino das famílias. Não se sabe quantas pessoas estão mortas e feridas neste momento. Sabe-se que a decisão de desocupação foi flagrantemente ilegal, bem como que a truculência militar e as detenções de líderes, parlamentares e advogados demonstram o caráter político-golpista do ocorrido. Certamente, as autoridades responsáveis por tamanha atrocidade não serão responsabilizadas. Possivelmente, além de desabrigados e humilhados em sua dignidades, muitos dos cidadãos hoje expulsos ilegalmente de suas moradias serão alvo de ações penais em razão da alegada prática de tipos criminais como desacato, dano ou qualquer outra conduta escolhida pelo seletivo aparato estatal. E é bem provável que aqueles que redigem textos como este revivam o drama de Émile Zola e tenham suas condutas capituladas em algum crime contra a honra.
Apenas uma lição deve ser extraída de tão dolorosa tragédia: o Estado Democrático de Direito é uma mentira. A legalidade é tão somente um artefato ideológico utilizado seletivamente para justificar o uso do arbítrio e da violência contra a classe social que produz, em favor da classe que parasita a humanidade. Não há qualquer cânone hermenêutico que explique a prática jurisdicional dos nossos tribunais, senão o meta-cânone da dominação de classe. É triste e muito, mas muito sofrido, aprender que um jovem alemão do século XIX, formado em direito e que com este sistema se decepcionara ainda na juventude, estava integralmente correto quando asseverou, em um misto de incitação com vaticínio, que “a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores”. Ceifaram as rosas do Pinheirinho, mas não impedirão a primavera da vitória do povo oprimido!

Scumbag War

Que significa ganhar ou perder uma guerra? É interessante o duplo sentido existente nas duas palavras (…) o vencedor fica com a guerra, o vencido perde-a; o vencedor acrescenta-a ao que é seu, torna-a propriedade, o vencido deixa de a ter, tem de viver sem ela. E isto não acontece apenas com a guerra em si mesma e em geral, mas com a mais insignificante das suas peripécias, as mais subtis das suas jogadas, a mais remota das suas acções.

Walter Benjamin
Teorias do Facismo Alemão, In: O Anjo da História, Lisboa: Assírio e Alvim, 2008.

A tragédia é – igualmente – não ter ferramentas para pensar um terceiro caso. Entre ganhar e perder, há a recusa. Não banhada num pacifismo ingênuo, vaidoso de seu próprio discurso. Trata-se de um não silencioso, negação em ato de uma disputa podre e vil, como qualquer.

Bem-aventurados são os Good Guy Greg, pois deles é o reino dos céus.

interior – parte 1 (rascunho)

-Vou me escapapar de mim.

Daí à fuga planejada, foi dois dias. Na quarta, bastou dizer sim ao convite de sempre. E todas vibraram. Você vai adorar! diziam, cegas. E um sorriso apático se perdeu nos corredores meio verdes, meio creme.

E a cada divisória colorida de fichário, passavam as aulas. Eram plásticas, e só havia de haver cinco cores. Em São Paulo deve ter dez diferentes. Ou sete, basta. Mas alí,  artes e matemática, vermelhas. Inglês, azul como história. E dessa, duas seguidas, lhe agradavam. Estavam na inconfidência mineira [hunf...] e tudo inspirava. E ouvia, atenta. Mas naquela sexta, imersa nos planos, imprevistos planos, as anotações viraram rascunhos, e a aula uma disposição seca de giz, mãos, cochichos e devanaios. [bizarro] Sentia vergonha dos devaneios, mas nem sabia disso.

[alguma coisa com bebedouro, ou banheiro. incômodo com gritos. qq coisa sobre o intervalo. (recreio?) comentários da festa?]

Desejava (no fundo, sempre no fundo) que a mãe dissesse não, que o pai desaconselhasse ou que o irmão aprontasse. Mas eram só sorrisos, sugestões e especulações – a portas fechadas. Rádio ligado e um ventilador obsceno: fazia calor e o banho não durava. Jeans, blusa – blusa – blusa. Suspiro… Saia, blusa, bolinhas, pingente, brincos, bolsa – bolsa, sapatos – sapatos. Bolsa, sapatos. Outras coisas. [preciso duma consultoria, jez...] Carona.

Sorria. Usava frases que não entendia. Foi o caminho todo segurando a garganta e olhando a chuva… a chuva… a chuva…

os 3 tipos do édipo

Para ser breve, do ponto de vista heteronormativo, os homens conseguem enxergar apenas 3 tipos de mulheres. As primeiras são as seguras. Aquele tipo pelo qual os homens piram e que as outras mulheres odeiam. Elas tem charme, seduzem até de chinelão e calcinha velha. São também essas que partem o coração, sem reparações possíveis.

Depois dessas tem o tipo de mulher transtornada. Essa que tem um piti quando você menciona uma possível viagem a Londres. Ela xinga você, seu emprego, Londres e a Kate Middleton. Ou então chora, diz que você não a ama mais e que é um idiota, que não a valoriza, que até o porteiro passou uma cantada nela da última vez que desceu pra buscar pizza. São inseguras sim, mas cobertas de toda a segurança de quem se ilude, achando que apesar da própria insanidade, não irá te perder. Elas também são encantadoras, se você estiver na vibe de um amor-louco-amor-que-acabará-antes-que-eu-fique-louco.

Aí, meu caro, tem o terceiro tipo de mulher, a que confunde a cabeça dos homens. Essas passaram pela escola de moças e aprenderam que uma mulher precisa ser compreensiva, companheira e respeitar o fato de que um macho precisa de seu território para mijar e caçar, na companhia de outros machos, por pura diversão. Acontece que dentro dessa mulher mora a insegurança, pois ela sabe que pode te perder, acredita que a qualquer deslize na direção da mulher transtornada que grita na cabeça dela, você se apaixonará pela sua vizinha, que tem craca no dedão, mas “meu deus, como tem um olhar devastador”. Ela aprende a calar a boca da mulher transtornada. Os homens não têm ideia de como isso exige esforço. Depile o buço, a virilha, faça o horizonte, tire a sobrancelha, use um salto 15 e dê o cu, tudo no mesmo dia, e isso ainda demandará menos esforço do que bancar a compreensiva, quando você não está compreendendo porra nenhuma. Mas esse esforço só é feito porque tem alguém que te ama e não quer te perder. Acontece que, com frequência, ela não se segura, deixa a transtornada escapar e fazer todo seu estrago.

(…)

by: Flor

180 (rascunho)

Era noventa e poucos, e um malboro maço.

Sentada no chão da garagem – studio -, tinha um jeans lavado e ainda sujo ditintazul. Clara era pintora, cega de um olho verde e lindo. Enquanto seu cigarro queimava e durava, ela se perdia no teto limpo, contrastes do espaço. A camisa não era de banda, mas bem que podia ser: branca e amassada, como a dona. Sutiã não usava, mas o peito era respeitoso e só se mostrava à noite. Grande e justo, era um dos seus pequenos orgulhos médios. Ajudava a vender.

Levantou e olhou as telas. Não via trabalhos incompletos, em desenvolvimento. Tudo o que via era um negativo, só o que faltava para o fim. Em segredo, todasuas vernissages pareciam belos quadros em branco, prontos, mortos. Mas pintava mesmo assim, assassina. Não havia temas, mas gostava de saias. Era fascinada pela imagem impossível duma saia parada. E toda vez que o pincel molhava a tela, o que lhe vinha era o movimento, a dança, o caimento duma saia real, fugitiva em seu lugar. Acabavam por ser borrões em cores, gordos e estáticos, como tinha de ser.

Batem no portão, e o cigarro queimainda.

Vai até o canto, e pega uma tela embalada com o braço esquerdo. Pesada, seus músculos doem e ela expira até pousar a peça nos pés. Destranca o portão e grita: abre.

Há um aperto de mão esquisito. A dela, vai direto pro bolso, meio incomodada do beijo que não foi dado. A dele encontra o braço, cruzado. É quanto? Senteoitenta. Caro… silêncio. Ele desamassa as notas e entrega o dinheiro trocado. Ela passa o olho, sem fazer contas. Coloca no bolso de trás. Ou melhor, enfia no bolso de trás. Se cansa do cigarro e apaga na parede. Vai embora, fala acenando com a cabeça e um olhar firme. Vai se fuder. Ela suspira e treme.

Dalí aos amassos foram poucos segundos. Entre os sussuros e lábios, ouvia-se um hálito de ódio, alguns urros mortos na fonte.

Pela manhã, quem olhasse do teto veria dois animais derrotados, feridos e calmos. Do ventre de uma noite paulistana, um amor parido de raiva.

Embrace – Egon Schiele (1912)

Led Zeppelin – D’yer Mak’er

leve

tenho nos meus pés a leveza
dum

bre
pózinho

pousado na sombra de seus desencantos


o

sabe fazer espirrar quem merece

(_alergia_corisa_rinite_)

brônquios alegres!
narinas a postos!
alvéolos abertos!

e…

num forte bufar
o mundo se póetiza

[Há, a, à] excessão francesa (rascunho)

sou todinha
suplementar
a ausência de um todo
me refaz quase inteira

e o que me falta é o que ninguém me dá
momento preciso
de demonstrar que não era nada disso
mas que eu queria
que mais eu queria?

uma menina de cabelos brancos
minha imagem no espelho da história
vou, aos trancos e barrancos,
me despindo do que é alheio à glória

até que nua, reencontre a vergonha
do ventre largo, dos seios rijos
e que no choro eu mesma me ponha
esquartejada, em mil esconderijos

de paixões

Combo da Semana – Raízes

Song da Semana

Escrito da Semana

Existirmos a que? Será que… se… destina?

Pois: quando tu me deste a rosa, pequenina, vi que és um homem (lindo…) E que se a caso, assina.

-”Do menino infeliz?”
-”Não…”

Se nos ilumina tão pouco, turva-se a lágrima – nordestina apenas -, a matéria, vida (era tão fina…) e éramos.

Olharmo-nos, intacta retina.

À Cajuína, cristalina em Teresina.

Caetano Veloso – Cajuína (em transcrição criminosamente livre)

Imagem da Semana

Giovanni Domenico Tiepolo - La processione del cavallo di Troia

Vídeo da Semana

parafernalha (rascunho)

parafernalha
palavra mais linda
e
sublime
já dita por
Amália

parafernalha
parece que tem um inferno dentro dela
mas as letras
discordam

parafernalha
poderia até ser um composto orgânico
tipo um fenol
enferrujado

parafernalha
um reino assaz distante
de pessoas desajeitadas
utilidade questionável

isso tudo é mentira

parafernalha é tudo aquilo que enche a minha boca de lixo e chorume ao ter que pronunciar qualquer frase em que não figure, orgulhosa, a liberdade dos meus irmãos, que são todos

(o que não é de todos já nasce podre)

PARAFERNALHA
só o inútil, e não o belo, e o que incomoda é que salvará o mundo (singular)
PARAFERNALHA
só a língua do meu igual – que é meu diferente – vale a pena ser falada. falhada, fodida.
PARAFERNALHA
anjo da história não me enterre sobre os destroços do teu voo, furacão de progresso
PARAFERNALHA
mas me deixe comer sem digerir aquilo que ninguém mais quer
PARAFERNALHA
é prova que meu bucho e corpo e dentes é de todos
PARAFERNALHA
política de dejetos, paráfrase de desejos
PARAFERNALHA
exala egoísmo, que é chuva de navalhas desafiadas
PARAFERNALHA
morro um tanto, pois lembro que sou eu e que o outro é outro
PARAFERNALHA
é a liberdade de sofrer
PARAFERNALHA
ir pro matadouro de si
PARAFERNALHA
só porque eu posso
PARAFERNALHA
porque é inútil
PARAFERNALHA
porque o que quero é ser
PARAFERNALHA
ou algo que o valha