Era uma caneta esquecida. Bic azul de nascimento, festejou quando ganhou uma tampa vermelha. Pensava, com sua cabeça de tungstênio já seca, quantas outras como ela eram bicolores. Como tinha tempo, decobriu rapidamente um número alto. Encontrou a verdade e foi feliz.
Mas uma menina pegou a caneta e escreveu as poesias mais tóxicas e feias do mundo. A caneta ficou triste e falhou. Foi para o lixo.
A menina, por isso, nunca mais escreveu e tornou-se promotora em Guarulhos e por 27 anos. Atormentou a vida dos funcionarios por 26, dos juízes por 12 e da moça que servia o café por toda a vida. Morreu de nervoso.
Mas a bic foi pro lixo e saiu de lá pela boca de um cachorro de raça. Acabou ficando embaixo da cama por muito tempo. Lá, deu pra pensar mais ainda. Se tornara uma caneta reflexiva, blasé e um tanto empoeirada.
Passaram-se bons anos. Imagine aí quantos você quiser. Bote 3 e tire 12. Se deu negativo volte ao começo do post. Se deu entre 1-12 vá ler Borges. Entre 12-20 vá namorar. Mais do que 20 então você leu Senhor dos Anéis direitinho e pode continuar.
Encontraram a caneta. É, se pá era destino. A caneta já pagava de intelectual entre as gerações de baratas que faziam visitas periódicas. Mas já era hora de voltar a ver o sol.
Foi um moleque que visitava a casa pelo verão. Bem calado, ele pegou a caneta e já percebeu que não se tratava de uma caneta qualquer. Tinha um desing antigo, tampa vermelha (naquela época e naquele país não havia bic vermelha). Viu que era coisa fina, peça de museu. Menino esperto. Já se imaginava dando entrevistas por ter encontrado antigüidade tão rara, que ninguém mais no mundo possuia. Entrevistas com os maiores jornais, encontro com políticos. O presidente em pessoa lhe daria uma gorda oferta pela caneta antiga. Mas não cederia. Um museu para a caneta seria construído, e a partir das doações ao redor do mundo, inúmeras outras canetas antigas (mas nunca tão velhas quanto a nossa) seriam recolhidas e o prédio ocuparia o atual palácio de governo, visitado por nosso moleque três dias antes. Acreditava ter visto o presidente passando rapidamente para o elevador. Depois de almoçar, voltou a fantasiar sobre ele, a caneta e o futuro. Dessa vez aparecia uma outra caneta! Portada por aquela menina linda da sexta série B, loira, olhos azuis e com braquetes brancos no aparelho. Aliás, a primeira menina a usar braquetes brancos na escola. E uma vez mostrou que tinha uma tatuagem de coração no ombro esquerdo, depois de voltar pra praia. Ela tinha uma caneta também. Eles casariam e comandariam o império de canetas juntos. Em alguns anos, construiríam uma imensa fábrica de canetas em formato de caneta. 1000 metros de altura, 700 de largura. As máquinas iriam construir as canetas a uma taxa de 20 por segundo por máquina e iriam jogar (cuspir) no centro do prédio. Elas caíriam de alturas diversas em uma enorme piscina (para promover a limpeza e tinturação das tampas, é claro) e seriam secas por um ventilador gigantesco e colocado em caixas por saguis que receberiam seus salários em bananas. Sempre quisera ter um sagui e uma fábrica. Achou um pouco estranho uma fábrica plantada no meio do nada em forma de caneta. Então pensou num campo inteiro de fábricas de caneta. Com fogo na ponta. A perder de vista. Afinal o mundo precisava escrever.
Mas nada disso aconteceu: seu pai mandou ele jogar a caneta seca fora. Dois dias depois o moleque voltou para casa, mais tarde descobriu o twitter e o youtube e programou até o fim dos seus dias.
Quando tudo se acabou no mundo, disseram os que sobraram por aqui que por pouco a velha bic não virava uma Mont Blanc. Seu espírito à espera do julgamento do juízo final ( que aconteceria dalí 13 dias, se tudo fosse bem. Mas pense em um purgatório cujo secretário geral é o Kafka, o juiz o Dostoiéviski, o faxineiro o Marx e o decorador o Goya. Se pá demoraria um pouco mais. Mas não muito. Ah! e mandaram avisar que esse papo de “já esperou uma eternidade, pode esperar mais um ou dois anos” é conversa de gerente de agência do bamerindos, dia antes da fusão.) pensou: Ufa!