As manhãs de sua infância não tinham cores ou sons. Antes, eram dotadas dos mais estranhos e fabulosos perfumes que a civilização foi capaz de descrever. E alguns outros mais. O cheiro de abraço de pai na biblioteca depois da chuva era do primeiro grupo. Qualquer um, com certo esforço, consegue imaginar este cheiro. Mas havia outros. O cheio de sonho com gorilas e despertar repentino antes do sol sair. Ou mesmo aquele perfume, quase de cravo amassado, de quando sua mãe contara sobre a queda de cavalo de seu irmão.
Os almoços antecipados do dia de retorno do campo tinham cheiro de madeira mastigada, ao passo que as chegadas exalavam um estranho odor de presente ciente de seu estatuto de passado – sentir o cheiro de bolo de milho e ter de sair antes dele ficar pronto…
Um infância muda em preto e branco. O resultado possível? Uma juventude intensa e contida.
Seu primeiro beijo foi um susto de gosto de borracha e olhos abertos. Tamanha era a paixão por Juan, mal conseguia entender o que se passara ali. Passou três noites em claro tentando compreender o que havia acontecido. Amava Juan, e ele a ela. Não haviam outros nas vistas ou corações deles. Eram aromas únicos que se misturariam pela primeira vez. O vilão da vez foi a timidez. Nossa heroína fingiu um mal-estar generalizado e conseguiu evitar a escola por alguns dias. Quando finalmente, teve que voltar a confrontar-se com seu desejo, tudo o que conseguia fazer era fugir do pobre garoto apaixonado. Juan, com todas as armas que tinha no auge dos seus 11 anos, tentou de tudo para conversar com sua Julieta: presentes, bilhetinhos mil, recados por amigas e até uma investida que terminou por uma perseguição ridícula no corredor das classes, terminando no banheiro feminino junto à lágrimas e frustração.
A adolescência não foi muito diferente. Dons, Juans e muitos outros passaram por sua vida sem deixar permanência, tal como os cheiros que lhe eram tão característicos. Diferente de uma foto, suas lembranças iam como aromas pelo vento. Lembrar era possível mediante muito esforço, mas sempre uma imaginação da memória-cheiro.
Preocupada com isto, resolveu mudar. Preparou, meticulosamente, seu retorno triunfal das férias como uma nova mulher. Uma mulher de cheiros, mas também de sons e cores. Sejamos sinceros: sua tentativa foi desajeitada, mal conseguia andar sobre os saltos, exagerara na maquilagem e no penteado. Mas como a ironia são as linhas tortas onde a vida é escrita, esquecera de passar perfume na noite de sua estréia, um barzinho com amigas.
Touts les garçons lui regardaient. Era, de fato, tão decidida em sua indecisão inodora! Sentada e bebendo a amarga (pela primeira vez amarga!) cerveja, começou a discriminar suas primeiras cores e sons… os braços castanhos de um rapaz à sua direita, os olhos verdes que gritavam seu nome e a melodia adocicada e ritmada do menino de jeans rasgado e camiseta branca que caminhava em sua direção amedrontado.
Pediu licença, e sentou. Conversaram por eternos 12 minutos.
Ninguém sabe o que aconteceu depois. Contam que daquele dia em diante, a moça dos perfumes sumiu no ar, e passou a visitar a imaginação dos apaixonados. Toda vez que tentam lembrar do cheiro de seus enamorados, é ela quem perfuma nossas almas, dotando o impossível de perfumes dos mais estranhos. Nós, iniciantes que somos na arte do olfato, acreditamos. Enquanto ela se diverte imaginando como deve ser a vida daqueles que abrem os olhos para poder cheirar…