Enxertos da Memória Parte III: O Dente
Patrícia tinha 7 anos e um desejo: Comer uma pêra.
Foi assim que saiu de casa, rumo à venda da esquina. Independente como era, andou por entre as gôndolas – que naquela época se chamavam prateleiras – até que avistou alí no canto as tais das pêras.
Escolheu com cuidado a pêra que comeria. Segurava a fruta pelo talo, girando, olhando e procurando alguma imperfeição. Não a encontrou. Pelo menos não olhando.
Chegou em casa, a lavou por minutos. Sua mãe olhava de canto de olho, (sor)rindo levemente de sua pequena Paty.
Foi quando, despreocupadamente, nossa heroína mordeu sua pêra e aconteceu. Perdera seu dente-de-leite!!!
Ficou ele lá, enfiado na pêra a espera de alguma reação. Era agora um dente livre, como havia sido Patrícia minutos antes.
Ah, liberdade, esta coisinha traiçoera!
Patrícia, estarrecida, olha para seu pai e diz com os olhos mareados
-Pai, eu quero colocar devolta! Quero meu dente!
Seu Pai respondeu apenas o essencial: a mentira que lhe faltava.
-Ah, acho que até dá querida…
(Patrícia ficou surpresa.)
Segurando a pêra, retirou o dente com cautela e voltou-se para a daminha que o fitava a espera de uma solução.
-É… é… acho que dá para colocar de novo sim. Mas… você quer? Quer colocar seu dente? Ele parece meio amarelinho e tristonho… Faz assim, você não quer esperar crescer o outro, daí você escolhe qual você prefere? Acho que é melhor né?
( . . .)
É claro que o Pai foi bem sucedido em sua empreitada. Patrícia teve lindos dentes, um fim de infância maravilhoso e casou-se aos 27 anos com um rapaz que amava. Este não é o ponto.
Naquele dia, Patrícia entendeu o essencial: Pais mentem. Pessoas mentem. Entendeu, ao seu modo, que pessoas são como pêras. Sempre com imperfeições, – visíveis ou não – sejam amassadas ou duras demais. Sentiu a verdade e foi feliz.
Série Diálogos
Dois homens:
DAN: When she came here, do you think she enjoyed it?
LARRY: I didn’t do it to give her a nice time. I fucked her to fuck you up. A good fight is never clean. And yeah, of course she enjoyed it. As you know, she loves a guilty fuck.
DAN: You’re an animal.
LARRY: Yeah? What are you?
DAN: You think love is simple. You think the heart is like a diagram.
LARRY: Have you ever see a human heart? It looks like a fist wrapped in blood! Go fuck yourself. You writer! You liar!
Fonte: Closer (2004)
Três tempos
Se há três lutos na vida, deve haver três momentos de festejo e regozijo. Três lutos, três mortes: a morte dos pais – famigerada revolta adolescente -; A morte da independência – a vinda dos filhos; e finalmente a morte dos filhos – a ’síndrome do ninho vazio’.
Quais seriam as contrapartidas lógicas destes três lutos?
Impossível de saber. Ou melhor, de simbolizar. Mas nesses momentos, uma imagem consegue dizer o que a boca se recusa. Os três tempos em três planos:
Fotógrafo: Dave Morris
Porque a verdade está sempre para além das palavras. Para meu infortúnio.
Falando em 90’s
Nossa, tinha é quase esquecido dessa música.
Boas lembranças, más recordações e uma ou outra memória contaminada de halls verde…
Do Bloco
Após 15 meses, o Bloco entra em nova fase.
Seguindo a sugestão de Mlle. Beca, os escritos serão doravante assinados.
Haverá também uma tentativa de remodelação gráfica. Aceito sugestões!
Sujeitos Barrados no Baile
Para todos aqueles que, de uma forma ou de outra, viveram a alegria de um bailinho de garagem nos anos 90.
One Of Us, J.O.
Dom Pedro I: Um cara firmeza
Eis que descobri que nosso primeiro monarca foi convidado a ser Soberano em três outras terrinhas além da nossa.
O Barbudo recusou-se veementemente. Escreveu-se sobre sua verwerfung à coroa Grega:
[...] “príncipe regente, porém, não traiu a confiança nele depositada pela nação brasileira, que o aclamaria seu Defensor Perpétuo. Amando verdadeiramente o povo da pátria que o viu nascer e tendo a intuição profunda da missão histórica (!!!) que lhe seria dada desempenhar na terra bárbara e selvagem do Novo Continente, resistiu à vaidade de ostentar em sua fronte o diadema da pátria de Homero e de Péricles”. (In: COSTA, Sérgio Corrêa da. As quatro coroas de D. Pedro I. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995, p.173, apud Wikipedia, claro)
É isso aí Pedrão! Mandou benzaço.

D. Pedro I, interpretado por um dos arautos da classe artística brasileira, Prof. Dr. Reynaldo Gianecchini
Enxertos da Memória – Parte II: O nanquim
Tocava o alarme. O sinal. A sineta. Já não lembro como se chamava aquele som. O que para todos soava como liberdade para mim soava um martírio: o recreio.
Era a quarta série. Meu colégio, tradicionalíssimo, tinha – escondida – uma vantagem: Todas éramos obrigadas a usar a mesma roupa. A tal saia xadrez e a camisa branca emblemada, me ajudavam-me a me esconder-me de mim mesma. Sofria de uma vergonha desmedida. Sentia-me tão feia e desajeitada quando andava que mais ou menos duas vezes por mês fingia uma dor qualquer para não sair da sala no recreio. Sempre achei que a Professora Dona Malena sabia que eu mentia.
Mas todas estas lembranças parecem agora apagadas e foscas perto daquele dia de nitidez, dia de lucidez.
Era um 13 de abril e o sol batia fraco em nossas carteiras. Dona Malena dava aula de história, a Guerra das Rosas. Eu brincava com meu pote de nanquim, passando o dedo na borda, tentando chegar o mais perto da tinta fresca sem manchar o indicador. Sempre conseguia. Ainda acho que é porque tinha medo de arriscar a chegar mais perto de verdade daquela tinta escura e inútil. Mas justamente naquele dia, o sinal tocou quando passava meu dedo bem próximo à tinta. Manchei-me no susto. O coração batia forte, palpitava pela sensação de descontrole que tomou conta do meu corpo. Assustara-me.
Foi o único dia que fui correndo ao pátio. Como quem segura uma mão que sangra, minha esquerda conduzia a direita ao banheiro, com o dedo virado para cima na esperança de sujar menos ainda qualquer coisa que fosse.
Longo era o caminho até o banheiro. Desisto, vou ao bebedouro. Sua pia era de uma louça alva com pequenas rachaduras acinzentadas perto do ralo. Lembro com clareza do fio negro circulando e circulando o ralo antes de encontrar seu destino. Deleitava-me com a imagem e até sorria.
Foi quando aconteceu.
Senti uma presença atrás de mim e lentamente me virei. Vi uma menina de olhos negros, rasos, cabelos bem escuros e longos que caíam como delicadas plumas em seus ombros. Seus lábios eram cheios e sua pele morena parecia quase falar comigo, me chamar para si.
Olhou para mim com naturalidade, sorriu e disse:
-Qual o seu nome?
Fiquei sem palavras por instantes. E como que por magia, meus lábios se mexeram e disse:
-Dora, meu nome é Dora.
Aquele foi o dia mais perfumado de minha vida. Culpo o nanquim.
O verso e o verbo
Escrevi-lhe um verso versátil
Que coubesse em teu bolso
Pequenino de maneiras,
O tal verso se escondeu
Não achas nem que queiras
Onde o verso se meteu?
Ah verso fujão… onde estará você?
Enxertos de memória – Parte I: O corredor
Com sua ridiculamente desbotada faixa na cabeça, João, o corredor, corria.
Na arrastada manhã o ar seco lhe ventava particularmente rápido: era a pressa que queimava seus pés e o conduzia pra frente.
Um daqueles poucos momentos em que não pensava em nada. João apenas corria. Desconhecido de epifanias aquele fato foi esquecido semanas depois. Aconteceu o seguinte:
Dava-se sua dança bípede de calcanhar e ponta, calcanhar e ponta, calcanhar e ponta. Está tudo tudo indo muito bem. Faz mais de quatro minutos e um bocado de segundos que João só corre, sem nada pensar ou lembrar. Eis que invade sem permissão sua boca um gosto familiar. O susto. Sente primeiro embaixo da língua, depois no céu da boca, até que aquele cheiro, gosto e textura lhe tomam a boca e a mente de assalto: era daquele beijo. Só o beijo dela tinha aquilo. E como poderia, passados tantos anos, lembrar assim sem querer de um gosto? Tamanha foi a sensação que o esportista se deixou parar. Colocando as mãos na cintura e franzindo a testa, disse cansado:
-Putz grila.
Eram os anos noventa. João estava lá, correndo antes de todo mundo. Quando Nike 10k ainda nem sonhava em nascer, João, o corredor, já corria. Mas naquele dia, voltou andando cabisbaixo pra casa. Tomou um banho e lembrou. Descobrindo o valor de um gosto, ficou a mexer a língua devagarinho por dias, como que tentando voltar a sentir aquele cheio-gosto. Sem sucesso, foi esquecendo seu passado e voltando a correr como antes.
João, 42 anos e uma resolução: não voltar pro sertão.